Na Mesa: Hancock

Já estamos acostumados com um hit por ano estrelando Will Smith: nos últimos anos tivemos Eu, Robô; Hitch; Em Busca da Felicidade; e Eu sou a Lenda. O bom Will não nos deixa na mão com esta nova aventura, onde ele interpreta John Hancock, o super-anti-herói que dá nome ao filme. Hancock é, aparentemente, imortal, porém perdeu a sua memória há aproximadamente 80 anos. A falta de conexão com o passado, sua longevidade e sua consequente solidão (ele não sabe se existem outros como ele) causam uma erosão no caráter do nosso herói. No início do filme, encontramos Hancock desacordado num banco de praça, junto à garrafa de pinga que consumiu na noite anterior. As primeiras atuações do “herói” mostram como ele é descuidado, exagerado e sem preocupação pelos inocentes que rodeiam sua área de ação.

Existem uma porção de blogs na net criticando o roteiro, a música e os efeitos especiais. Sejamos honestos: Hancock não vai ganhar nenhum Oscar por esses critérios. Os efeitos especiais às vezes deixam um pouco a desejar, especialmente para um público que está acostumado com gráficos excelentes como aqueles vistos no filme Transformers e na trilogia X-Men. A música passa desapercebida, sem nenhum tema que fique na memória.

O interessante é que alguns blogs criticam justamente o que torna Hancock diferente de tantos outros filmes que figuram super-heróis:

Exagerado, bêbado, desengonçado e truculento, Hancock (Will Smith) atrapalha mais do que ajuda. Ao invés de aplaudir seus feitos, o povo reclama e xinga. E ele não está nem aí.

A trama flui naturalmente até que o relações-públicas frustrado (Jason Bateman) decide ajudar o anti-herói a mudar sua imagem. Isso significaria mudar totalmente seu comportamento e, o mais importante, assumir responsabilidade pelos seus atos.

O mais surpreendente depois disso é a total inversão do clima estabelecido no início. Em uma análise grosseira, é como se o “Homem de Ferro” se transformasse em “Hulk” (de 2003). O clima engraçado e light dá lugar a um drama completamente inesperado.

A inversão do clima acontece justamente porque os roteiristas (Vincent Ngo e Vince Gilligan) e o diretor (Peter Berg) não estão só contando mais uma história de super-herói. O objetivo do filme é contar uma história de redenção e mudança de vida, temas que podem até ser pesados demais para alguém que só quer comer pipoca e assistir sem refletir, mas que formam uma crítica interessantísima à nossa cultura e ao egoísmo que nela floresce.

O processo de transformação de Hancock começa quando ele se encontra com Ray Embrey, o relações-públicas mencionado acima. Ray tem boas intenções e quer que Hancock seja bem-visto pela sociedade: “Quero mudar a percepção que as pessoas tem de você.” Se os autores fossem cínicos, continuariam na linha de X-Men e Quarteto Fantástico, mudando apenas a roupa do herói e tentando “vender” uma imagem externa que nem sempre é fiel aos conflitos internos dos personagens. Nestes dois filmes existem, sim, mudanças interiores que acompanham o desenvolvimento dos heróis (tanto para o bem – Wolverine, Tocha – como para o mal – Fênix), mas em geral, são mudanças que acontecem depois das alterações externas. Em Hancock, até o relações-públicas reconhece que não há sentido em simplesmente mudar o exterior. Hancock tem uma vocação: a de ser um herói, e para isto ele tem que enfrentar seus problemas antes de assumir essa responsabilidade.

Hancock não trilha esse caminho fácil, mas se atêm a sua proposição inicial: contar uma história realista sobre um personagem com poderes sobrenaturais. Antes de assumir uma nova identidade externa, Hancock tem que enfrentar seus conflitos internos e mudar. A jornada de Hancock não é fácil, mas ao longo dela o anti-herói aprende muito sobre humildade, responsabilidade e sobre a sua necessidade de ter outras pessoas nas quais possa se amparar, mesmo se tais pessoas forem apenas meros mortais.

Sem estragar a surpresa do filme, posso dizer que ela também trata diretamente desse tema. Hancock tem uma escolha: pode ir atrás do que ele deseja (e que é de direito, seu) ou pode sacrificar a sua felicidade pela felicidade dos outros. Sua escolha, no final, afeta não só a sua própria vida, mas também a vida daqueles que se tornaram seus amigos durante a sua jornada.

Hancock não é apenas mais um filme de super-herói. É uma história sensível e tocante de transformação interior. Quando finalmente o vemos como herói, somos testemunhas de que não é apenas um golpe de relações públicas, ainda que o processo tenha começado com essa intenção.


Filme: Hancock
Distribuição: Nos Cinemas
Gêneros: Ação / Aventura / Ficção Científica / Comédia
Direção: Peter Berg
Roteiro: Vincent Ngo, Vince Gilligan
Fotografia: Tobias A. Schliessler
Elenco: Will Smith, Charlize Theron, Jason Bateman
Duração: 92 minutos

Participe da discussão

3 comentários

  1. Bom, sou um Relações Públicas, e não intendo como a impocresia das pessoas que olham durante 92 minutos do filme simplismente o super herói. O filme enfatiza o trabalho do relaçoes públicas que faz um trabalho composto, para que ele seja mais bem visto pela sociedade. Como foi dito no começo da matéria, o filme não quer se parecer com outros filmes de super herói, mais é um filme de unico intuito de promover o profissional de relaçoes publocas pessoal, entre outros seguimentos da profissão.

    grato por poder expressar minhas intenções como profissional !

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.