Proclamando a nossa (in)dependência

Independencia ou Morte - Pedro Americo

A pintura é de Pedro Américo, feita em 1888 e orgulhosamente entitulada Independência ou Morte! É uma majestosa lembrança daquele dia onde as tensões decorrentes da tirania continental chegaram ao seu ápice, culminando no brado que deu nome à figura e rompendo até laços familiares.

Já passei tantos dias 7 de setembro longe do Brasil que não me acostumei a celebrá-los. Sempre recebia e-mails com alguma referência ao feriado, mas nunca gastei muito tempo pensando sobre o dia, a celebração do mesmo, ou sobre as idéias que giram em torno do próprio princípio da liberdade que foi proclamada. Pois bem, neste ano, de volta à minha terra, circundado por outras pessoas interessadas em celebrar esta data, pude pensar um pouco sobre o legado que Dom Pedro I nos deixou e as implicações da nossa idéia de independência.

Da independência nacional para o nacionalismo independente

Após assistir o discurso do Presidente ontem à noite, olhei um pouco o site oficial do planalto para as celebrações de hoje. Certas coisas me ocorreram:

  • Não há, no site mencionado acima, nenhum resumo da história da independência do Brasil. Há informações sobre a história da bandeira, do hino, etc. Mas quem não conhece a história da independência em si, se depender do site, vai ficar ignorante mesmo.
  • Na programação oficial para as celebrações haviam enxertado celebrações quanto ao “Ano da França no Brasil”. Quem conhece história sabe que apenas alguns anos antes de declararmos independência, a nossa pátria mãe (Portugal) estava sendo atropelada pelo exército Napoleônico. É irônico (no sentido Alanis) ou não é?
  • O Presidente Lula falou bastante sobre a riqueza brasileira, não só no pré-sal, mas elogiando a qualidade de serviço e know-how da própria Petrobrás. Se empolgou com a economia e a diminuição do desemprego, mencionou as taxas de juros baixas, e discorreu sobre as melhorias sociais dos últimos anos.
  • É só no finalzinho do seu pronunciamento que o Presidente fala sobre a independência e sobre o 7 de setembro, dizendo:

Queridas brasileiras e queridos brasileiros, é tempo de ampliarmos ainda mais a nossa esperança no Brasil. A independência não é um quadro na parede nem um grito congelado na história. A independência é uma construção do dia-a-dia. A reinvenção permanente de uma nação. A caminhada segura e soberana para o futuro. Viva o 7 de setembro!

A impressão que ficou, pelo menos para mim, é que a celebração de hoje tem mais a ver com a nação que somos agora do que com o que éramos na época da independência. Na verdade isto faz muito sentido, já que o nosso relacionamento com Portugal é completamente diferente hoje do que era em 1822. Mesmo assim, a mudança de foco é aparente. O estranho é que o Presidente nos chama para tirarmos a independência empoeirada da prateleira e a continuar sendo independentes, reinventando-nos a cada dia, caminhando segura e soberanamente para o futuro. A idéia de independência, ao servir este propósito, vira uma noção geral de falta de controles, falta de compulsões internas ou externas que ajam sobre o nosso país.

Mas é isso mesmo o que queremos? Queremos estar independentes de tudo? Pois, se somos conclamados a ser independentes, mas não fica claro do que precisamos deixar de ser dependentes, essa linha acaba na anarquia total.

Liberdade e soberania/autonomia não são equivalentes

Tive o grande prazer de participar, na semana passada, do módulo A Sina da Liberdade na Filosofia Moderna do CPAJ, lecionado pelo Dr. Davi Charles Gomes. No decorrer das aulas examinamos como a idéia da liberdade foi se transformando ao longo dos anos à medida que passou por diversas cabeças. A nossa idéia de independência e a sua ligação com a soberania está relacionada à idéia iluminista (racionalista) da liberdade, que associa liberdade com autonomia, ou seja, a capacidade de ser uma lei para si mesmo (auto=si, nomos=lei), de decidir o que é certo ou errado sozinho. A falta de fatores externos limitantes, ou seja, a independência de qualquer outra pessoa ou sistema na hora de tomar decisões, é que é vista como a verdadeira liberdade. Recomendo a matéria a todos que tiverem interesse no bloco ideológico fundamental sob o qual foi construída toda a nossa política e sociedade ocidental.

A Bíblia nos dá uma definição de liberdade completamente contrária à que está acima:

17Mas graças a Deus que, embora tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; 18e libertos do pecado, fostes feitos servos da justiça. 19Falo como homem, por causa da fraqueza da vossa carne. Pois assim como apresentastes os vossos membros como servos da impureza e da iniqüidade para iniqüidade, assim apresentai agora os vossos membros como servos da justiça para santificação. – Romanos 6.17-19 (ênfase minha)

Ao invés de sermos soberanos ou autônomos, Paulo diz que logo que somos libertos do pecado somos feitos servos da justiça. A idéia de liberdade e independência de Paulo não é uma coisa nebulosa ou sem direção, é claramente liberdade de alguma coisa e para outra coisa. Vemos isso nos versos que seguem:

20Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres em relação à justiça. 21E que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais? pois o fim delas é a morte. 22Mas agora, libertos do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna. 23Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor. – Romanos 6.20-23

Normalmente não pensamos em liberdade nestes termos. Estamos acostumados a equiparar a liberdade com a autonomia, a soberania, e a auto-determinação. Compramos a idéia da nossa sociedade, onde vencer na vida e ser livre significa não ter que obedecer a ninguém, traçar os seus próprios caminhos, controlar o seu futuro. Mas olhando estes versos só por cima, já descobrimos tremendas diferenças entre este ideal e a real liberdade que Deus nos dá:

  • É Deus que liberta…ninguém liberta a si mesmo. (18)
  • Somos libertos para sermos servos da justiça, (18) servos de Deus (22).
  • Como servos da justiça, os frutos da servidão ao pecado não contam mais contra nós. (22)

O Dia da Independência do Brasil já está quase acabando, mas não consigo matar as perguntas que foram criadas na minha cabeça. Para onde o Brasil estará caminhando, “soberanamente”? Talvez possamos fazer alguma diferença nisso se, ao invés de reinvidicarmos a nossa liberdade absoluta e de focalizarmos as nossas energias na nossa independência, proclamarmos ao nosso país e aos outros países do mundo a nossa dependência em Deus e a libertação que Ele nos deu. De agora em diante, para mim, o 7 de setembro será o Dia da Dependência. Minha oração é que um dia este seja o reconhecimento do nosso país, também.

5Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. 6Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas. 7Não sejas sábio a teus próprios olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal. 8Isso será saúde para a tua carne; e refrigério para os teus ossos. – Provérbios 3.5-8

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4 comentários

  1. Acredito em Deus acima de todas as coisas, mas não entendo por que misturar o que nosso Senhor disse com política? Ao menos neste caso, me que o texto que você usa como comparação sirva apenas para enaltecer o governo e fazer um chamado para que a população lute para que realmente o pré-sal seja usado para benefício da população brasileira.
    Partindo que se era simples busca de assunto para basear seu texto simplesmente em um programa feito para a televisão que atinge principalmente população de média, baixa renda, pois parte da população migrou da para televisão a cabo no momento da fala do presidente.
    Creio que você conheça a história do Brasil tanto quanto a independência e os motivos porque ela ocorreu (pressão inglesa, decadência de Portugal, etc.), contudo gostaria de dizer de ressaltar que a independência do nosso país ainda não ocorreu somos colônia dos grandes países como os EUA, dentre outros que simplesmente através de seu poder mantêm diversos países sobre suas rédeas, mas isso é outra história, dou crédito a fala do presidente e lhe comprimento pelo seu conhecimento em filosofia e teologia, contudo penso que essa comparação um tanto quanto inóspita!

  2. Olá Fernando –

    Seja bem-vindo ao blog, agradecemos o seu comentário e a sua participação. Vou tentar responder por partes.

    Primeiro, eu entendo que as palavras do nosso Senhor, e não só elas mas na verdade todas as Escrituras, devem ser aplicadas em todo o âmbito da ação e da experiência humana. Isto significa que nada pode existir no meu mundo que não seja tocado pela cosmovisão (visão do universo, do mundo, da realidade) que Deus apresenta na sua Palavra. Isto inclui a política, os ideais filosóficos e sociais que estão por trás dela, e por aí vai. É deste ponto (de cosmovisão cristã) que estou partindo, e a partir dele não creio que esteja “misturando” nada, e sim examinando, comparando, e discernindo as idéias que estão vigentes no mundo contemporâneo e avaliando-as à luz das Escrituras. Creio que é isso o que somos comandados a fazer em I Tess 5:19-21: “Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias, mas ponde tudo à prova. Retende o que é bom.”

    Segundo, eu não falei nada contra a parte do vídeo que fala sobre o pré-sal, apenas mencionei o finalzinho onde o nosso Presidente equiparou independência/liberdade com soberania. Eu pequei o vídeo todo porque não consegui achar um no YouTube que só tivesse o final dele. E eu assisti ao vídeo num canal a cabo, e não dou a mínima se um segmento pequeno da população mudou para outras programações na TV a cabo — a idéia que ele expressou continua sendo a mesma e é uma idéia que tem sido difundida ao público brasileiro por décadas, muito antes até do Lula aparecer. E não é só no Brasil que isso aconteçe, óbvio, mas cuidemos da nossa casa primeiro, antes de tentar cuidar das outras, certo? Resumindo: não era uma crítica (apenas) ao nosso Presidente, mas à ideologia que nega a dependência em Deus e afirma a soberania do homem em qualquer aspecto da existência. Esta ideologia está presente em todas as opções políticas existentes desde que surgiu o Iluminismo.

    Terceiro, creio que a sua colocação de que “somos colônia dos grandes países como os EUA” mostra que não consegui comunicar o ponto do artigo. Se o seu critério para a liberdade é a soberania, vai ser muito difícil achar qualquer nação no mundo que esteja completamente livre de fatores externos (e internos, mas vamos ficar nos externos) que sobreponham rédeas sobre os seus campos de ação (até os EUA — senão já tinha pulverizado a Coréia do Norte, o Irã, e mais um monte de países). O ponto do artigo foi outro: que a soberania, biblicamente, não pode ser considerada o critério da liberdade, e que a própria idéia de independência é na verdade uma falsa interpretação da real liberdade, que se encontra em sujeição e serviço à Deus e uns aos outros.

    Celebro sim o fato de que Deus nos deu a oportunidade, como país, de livrar-nos de um regime opressor no passado. Reconheço também que nós como Brasil criamos regimes até mais oppressores para nós mesmos, no decorrer da nossa história. Alegro-me no fato de que hoje vivemos num momento onde, pelo menos em parte, não há opressão sobre as nossas ações. Mas rejeito a idéia de que o ideal da soberania seja algo que solucione os nossos problemas ou faça de nós um país melhor. Prefiro muito mais gastar o meu tempo, nos próximos setes de setembro, em atividades que lembrem à minha familia, aos meus amigos, e aos outros com quem temos contato de que a verdadeira liberdade só se encontra na dependência em Deus. E isso inclui a liberdade do nosso Brasil e dos seus governantes. Se todos nós começarmos a depender Dele cada vez mais, seremos melhores cidadãos, governantes, pais, filhos, maridos, esposas, irmãos, etc., e juntos construiremos maneiras melhores de sermos Brasil.

    Espero que tenha dado para esclarecer um pouco o meu ponto de vista.

    Abraços!

         – David

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