Na Mesa: Wall-E

Os filmes da Pixar (Toy Story – Um Mundo de Aventuras, Vida de Inseto, Monstros S.A., Procurando Nemo, Os Incríveis, Carros, Ratatouille, etc.) são caracterizados não só pela animação gráfica excelente, mas também por seus roteiros inteligentes – as piadas trocadas pelos personagens formam grande parte do humor do filme.

Com Wall•E, a Pixar prova que não precisa depender das conversas entre personagens para produzir uma história engraçada e cheia de momentos emocionantes. O fato é que vinte minutos passam antes que se ouça a voz dos personagens principais. Porém, ao chegarmos a este ponto, já conhecemos bem o protagonista e a sua personalidade.

Wall•E é um robozinho inteligente com um trabalho nada atraente. O planeta terra está completamente entulhado de lixo, problema que força a humanidade (liderada por uma mega-companhia, a Buy-N’-Large) a deixar o planeta e viver numa nave espacial gigantesca, a Axiom. A diretriz do Wall•E é de juntar e compactar o lixo, criando enormes edifícios com esses cubos. Originalmente, esta tarefa se encaixava com os esforços de outros robôs e o plano de limpeza deveria tomar só cinco anos, porém dá pra perceber logo de cara que tudo não ocorreu conforme foi planejado. Wall•E é, pelo que podemos ver, o último robô sobrevivente no planeta. Sua solidão chega ao fim quando uma nave espacial pousa e deposita a EVE em solo terrestre. A partir deste momento começa um romance que nos traz à memória as coisas simples do amor (como a doce emoção de dar as mãos pela primeira vez) e uma aventura que leva os dois a cruzar a galáxia e re-encontrar o que resta da raça humana.

Vários temas sociais e filosóficos são abordados à medida que a trama se desenvolve. O principal, obviamente, é o da responsabilidade que a raça humana tem de cuidar do planeta onde vive. Mas o filme não prega e não vem com chavões piegas – simplesmente reconhece naturalmente a necessidade de cuidar do planeta (e as consequências terríveis de ignorarmos essa responsabilidade).

Há também uma tentativa de redescobrir as simples belezas da sociedade humana. Somos surpreendidos, tanto pelo Wall•E como pelo Capitão da Axiom, quando eles encontram beleza em coisas corriqueiras que muitas vezes nos passam desapercebidas, desde uma chama de isqueiro até uma dança de quadrilha western. O panorama apresentado quando visitamos a nave Axiom mostra um extremo que pode ocorrer com a nossa sociedade, se continuarmos a nos conectar virtualmente à medida que nos separamos fisicamente.

Alguns filmes servem simplesmente para a diversão. Outros (como o recém-mastigado Tropa de Elite) são tão sérios, e nos levam a pensar sobre tantos temas alarmantes, que é difícil classificá-los como simples entretenimento. Mas existe um terceiro tipo de filme que consegue divertir e nos levar a pensar ao mesmo tempo. É nesta última categoria que Wall•E se encontra. O filme trata dos temas mencionados acima de uma forma clara, sem filosofar demais. Consequentemente, é uma plataforma perfeita para introduzir conversas sobre o meio ambiente e a desconexão social com os filhos e amigos.

Wall•E é, no fundo, uma história de amor, contada de forma simples e inocente. Isso é refrescante numa época em que o entretenimento para crianças e adolescentes frequentemente identifica a sexualidade com o amor e não faz distinção entre os dois. Os valores românticos exibidos no filme, incluindo a dedicação, o zelo pela proteção e o sacrifício próprio em favor da pessoa amada, são exatamente os que deveriam ser inculcado nos nossos filhos (e em nós!), antes de qualquer discussão sobre a sexualidade. Precisamos de mais filmes assim, que contenham histórias lindas de amor sem empurrar uma agenda híper-sexual. Sem dúvida lembra o trecho do livro de Filipenses:

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. O Apóstolo Paulo (Filipenses 4.8)

Em vista de todas essas coisas, a minha recomendação é simples: vá ver o filme com a família toda! Irão se divertir e terão solo fértil para gerar conversas sobre os temas que são abordados.


Filme: Wall•E
Distribuição: Nos Cinemas
Gêneros: Ação / Aventura / Ficção Científica / Comédia / Animação
Direção: Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton, Peter Docter, Jim Reardon
Animação: Pixar
Elenco (Vozes e Efeitos Sonoros): Ben Burtt, Elissa Knight, Sigourney Weaver, Jeff Garlin, Fred Willard, John Ratzenberger, Kathy Najimy
Duração: 92 minutos

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5 comentários

  1. Eu entrei no cinema pensando que o filme ia ser um lixo. Saí do cinema tendo gostado MUITO. Talvez porque minhas expectativas eram muito baixas e eu fui surpreendido.

    Muito bem feito mesmo.

    Homens, é um ótimo filme para se ver com as esposas. Elas se derretem todas e vocês não precisam aturar um filme meloso. Os dois se divertem.

    Abraço,

    Daniel

  2. Eu estava com altíssimas expectativas para este filme. Amo todos os filmes da Pixar e este parecia ser ainda mais especial. De fato, foi o que eu imaginava, até melhor. Extrema sensibilidade, divertido e qualidade técnica impecável. Há ótimas discussões:
    -acerca do cuidado da criação, assunto que os cristãos infelizmente rejeitam, mas que é mostrado de forma séria e ao mesmo tempo leve. A expressão “Mordomia cristã” deve voltar ao nosso vocabulário!
    – A questão da escessiva dependência tecnológica, pessoas que estào lado a lado se comunicando pelos computadores. É um barato ver aquele casal que se livra dos computadores passando a se relacionar e a curtir o universo. Sim, eu percebo a ironia de que estou me comunicando com vocês pelo computador.

    Assim vai. mas como bem observado, não é um filme pesado, é bem leve e divertido e ao mesmo tempo seríssimo.
    Amei!

  3. Quase chorei nesse filme… EEEEEVA!

    Foi bom assistir aos créditos, pois me lembrou que devo valorizar o que tenho bem na minha frente: um ecosistema perfeito para sustentar a vida humana.

    Sou tão abençoado, e devo agradecer ao Senhor pelas bençãos que me deixam respirar, viver…

    Ótima resenha David!

  4. Fala Emilião! Saudades de você. Bom, não sei se a expressão “mordomia cristã” é que deve voltar ao nosso vocabulário…acho que precisamos de uma nova expressão que tenha o mesmo significado mas que seja, pelo menos superficialmente, compreensível pela geração atual. Usando essa aí, a galera vai pensar que crente tem que sair por aí vestido com terno pinguim…

    Sugestões (nenhuma delas sérias, estou sem inspiração): “sacerdócio ambiental”, “teologia verde”, “fogo santo sem efeito estufa”, etc.

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