E Se o Mundo Pudesse Votar?

Meu grande amigo Emílio, há algumas semanas, escreveu sobre um site interessante que tem como objetivo avaliar que candidato o mundo escolheria para ser presidente dos Estados Unidos. O site chama-se If the World Could Vote, e usa o IP (um número que identifica a sua conexão à Internet) para determinar de onde vem os votos. Até o momento em que estou escrevendo, 770.991 pessoas registraram lá os seus votos. 35.991 destes votos vieram do Brasil (sejam brasileiros ou por americanos morando no país, não dá pra saber), e se formos pelo site, 86% do Brasil votaria pelo Obama se pudesse votar na eleição americana.

Hoje estava conversando com um amigo meu, americano, aqui em Dhaka, sobre a eleição. Ele votou hoje cedo, e brincou que quase votou pelo partido socialista, só como brincadeira. (Uma brincadeira bem americana, já que o país ainda tem lembranças marcantes da guerra fria e, na maioria, pensam que comunismo e socialismo são uma coisa só; por isso nunca elegeriam alguém que se autodenomina socialista). Mas a brincadeira dele me fez pensar um pouco sobre como esta eleição está sendo apresentada e discutida pela mídia e pela sociedade mundial.

A Pré-Seleção de Candidatos

Se ligamos a CNN ou a BBC, somos bombardeados com chamadas dizendo “Obama! McCain! Quem será eleito? Acompanhe conosco a eleição!” acompanhadas de fotos e vídeos destes dois candidatos. Nas pesquisas eleitorais mostradas na TV, vemos os resultados apresentados da seguinte forma:

  • Obama: X%
  • McCain: X%
  • Indecisos: X%

E tem sido assim, desde o fim do último circo que a mídia fez sobre a briga entre Obama e Hillary pela candidatura do partido democrático. A verdade é que a mídia americana e mundial restringiu a cobertura que fez sobre os candidatos à presidência, e só apareceu na TV quem dava ibope. Criaram uma falsa dicotomia (uma escolha que só oferece duas soluções) e passam aquilo como sendo a verdade. Falharam miseravelmente na sua responsabilidade de informar ao cidadão americano (e ao resto do mundo) sobre as outras opções, candidatos inteligentíssimos como Ralph Nader, Ron Paul, e a super-interessante Cynthia McKinney. É bem provavel que você não tenha ouvido nenhum destes nomes, e a triste verdade é que a grande maioria dos americanos também desconhece quem são estas pessoas.

O efeito prático da decisão de só dar atenção àqueles candidatos que são populares é o de marginalizar os outros e de reforçar ainda mais a dominancia dos candidatos que estão por cima. Enfim, chega o dia da eleição e o cidadão americano é surpreendido pela quantidade de nomes e opções que se encontram no papelzinho. Mas já que a grande maioria aprendeu tudo o que sabe sobre a eleição e sobre os candidatos através da televisão (e é assim que o povo aprende no Brasil também), votam nos candidatos que conhecem. Afinal, quem vai votar num nome que nunca ouviu antes, ou se ouviu, numa pessoa cuja linha de pensamento é completamente desconhecida?

Isso acontece no Brasil também, apesar de termos o horário eleitoral na TV e no rádio, onde tentam dar a oportunidade a todos os candidatos para expressarem às suas posições políticas. Mas fala sério: horário eleitoral é hora de tomar banho, de ver um DVD, de ler um livro, surfar na Internet, escutar música, comer um lanchinho, ou seja qualquer coisa menos ficar escutando um monte de candidatos (com variações imensas nos seus estilos e habilidades de comunicação) falarem sobre o que vão fazer se forem eleitos. Não estou dizendo que deveria ser assim! Mas na prática é o que acontece 99% das vezes: o cidadão acaba aprendendo sobre a eleição e sobre os candidatos nos noticiários e nos jornais, se é que se importa de vê-los e lê-los. E o poder de escolha é retirado das mãos do cidadão e retido pela mídia, já que, afinal, não se pode escolher uma opção se não se sabe que ela existe.

Nós Somos Cúmplices

A sociedade mundial, especialmente aqueles que debatem e discutem na Internet sobre o efeito destas eleições no resto do mundo (e pode crer que o resultado vai afetar a sua vida de uma forma ou de outra, seja economicamente, politicamente, ou de alguma outra forma), em grande parte caem na cilada preparada pela mídia. Um exemplo óbvio é o site que mencionei acima. Pergunta-se ao mundo em quem votariam, mas oferecem apenas duas opções: Obama ou McCain. E se o mundo soubesse quem é Ron Paul e quais são as suas idéias? Será que votariam nele? Nunca saberemos, pois o site restringiu o voto às duas opções. Outros sites seguem a mesma linha. Até o artigo da Wikipédia (site que eu amo e uso múltiplas vezes todos os dias) sobre as eleições deste ano, apesar de mencionar alguns outros candidatos e de listá-los quase no final do artigo, posiciona as fotos de Obama e McCain no início, como se fossem as únicas opções. Aliás, até aqui no mastigue.com caímos nessa. A discussão sobre a política americana, que aconteceu no segundo episódio do nosso podcast, girou principalmente em torno do Obama e do McCain, sem dar espaço para as idéias dos outros candidatos, ou no mínimo reconhecer a sua existência.

Fazer o Quê?

A Internet é uma ferramenta poderosa que pode ser usada para divulgar e discutir informações sobre política, filosofia, ética, ou qualquer outro assunto. Mas não passa de uma ferramenta, não é uma solução mágica para o controle que a mídia tradicional (televisão, cinema, revistas, jornais) parece ter sobre a ideologia do povo. Quem já comprou a pré-seleção da mídia só vai escrever e comentar dentro destes parâmetros. O desafio que temos, como cidadãos de um mundo cada vez mais conectado, é o de darmos espaço para aquelas idéias que estão sendo injustamente marginalizadas. Que tal se fizermos isso na próxima eleição (e agora estou falando das eleições brasileiras mesmo), ao invés de nos contentarmos em repetir as discussões prevalentes na mídia? Se não, consentimos silenciosamente com as falsas dicotomias apresentadas por uma indústria que está mais preocupada em encher os bolsos com o dinheiro dos anunciantes do que em contribuir para o processo democrático. E se permitimos que estas mentiras continuem sem lutarmos pela verdade, não devemos nos surpreender se o resultado for o que Joseph Goebbels (Ministro da Propaganda do governo Nazista) dizia:

Se você proclamar uma mentira enorme e continuar a repetí-la, eventualmente o povo começará a crer que ela é a verdade. – Joseph Goebbels

Diante de todas estas coisas, e principalmente diante da falsa dicotomia que a mídia apresentou nos últimos meses, talvez a pergunta deveria ser “E se o americano pudesse (realmente) votar?”

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3 comentários

  1. Não acho ruim ter dois partidos que representam a maioria da população. Nas poucas vezes que houve eleições com três partidos que representavam uma grande porção da população, o partido mais diferente dos outros acabou ganhando não porque a maioria da população o queria, mas sim porque o voto da oposição foi dividido entre dois partidos similares. (Como no caso do Bull Moose e a vitória de Woodrow Wilson)

    Também não concordo que a mídia é responsável pela escolha dos candidatos. Creio que a mídia está simplesmente noticiando para a maioria da população que, por causa da familia, status, ou crenças (seja sobre o tamanho do governo, sobre aborto, etc.) se alinha mais ao partido republicano ou democrático.

    Durante as primárias quando o povo americano vota pelo candidato republicano ou democrata (eles se cadastram como republicano ou democrata antes da primária acontecer), a mídia deu bastante atenção aos debates entre os candidatos. Quem foi as urnas depois e escolheu os dois candidatos não foi a mídia, mas sim o eleitor.

    Não digo que a mídia não faz parte do processo, mas creio que a escolha dos candidatos não é feito pela mídia; a mídia espelha o que as pessoas querem ver.

    Mas se a mídia tenta fazer a cabeça do povo sobre qual candidato seria a melhor escolha, isso já é outra história… 😉

  2. Não posso falar s/ eleições americanas, pois tudo o que vemos na maioria, é sempre uma festa linda, não sabemos o que se passa em todo o processo, mas nós brasileiros, talvez devessemos ter apenas 2 partidos e mais conciência de cada um de nós como cidadão responsável por tudo que acontece nesse país, ainda detestamos o horário político, qdo. deveriamos dar mais importãncia e assim talvez melhorasse esse tal espaço político em nossas TVs. Acorda gente!!!!

  3. Não posso falar equivocadamente que a mídia é 100% responsável pela falta de informação, mas concordo com o David– ela é muito poderosa e faz a cabeça de muitas pessoas. Vejo isso claramente quando converso com pessoas sobre Bush. O MUNDO odeia (odiava) Bush, e muitos só falavam mal dele. MAS, quando conversava com muitos dos meus amigos Americanos, eles não tinham uma visão tão forte e negativa contra seu próprio presidente.

    Pq??? Eu acredito que é por causa da mídia. A mídia Americana influencia o povo de um jeito, enquanto a Brasileira influencia de outro… quando morava nos Estados Unidos não tinha a mesma visão negativa do ex-presidente Bush que os meus amigos brasileiros carregavam.

    Na minha opinião, aqueles que controlam a mídia tem poder demais.

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