“Sua vida nunca mais será a mesma…” (Parte 1)

Lucas Donovan PortelaComo o Daniel já anunciou, o meu silêncio virtual durante os últimos dias se deu, em grande parte (para evitar dizer “em grande parto”), ao nascimento do meu primeiro filho, o lindo Lucas que vocês podem ver à direita. Já faz mais de uma semana que o Lucas se uniu a nós “do lado de fora” da barriga da mamãe, e no meio de idas e vindas ao hospital, fraldas trocadas, choros confortados, cochilos furtados durante o dia, e visitas que derramam o seu amor sobre o nosso filho e sobre nós, tive alguns momentos aqui e ali para pensar um pouco sobre como esse grande evento nas nossas vidas (cujo pézinho é tão pequeno) tem nos afetado.

Durante os meses em que minha esposa estava grávida, uma das frases que ouvimos quase universalmente foi: “A sua vida nunca mais será a mesma.” O interessante, para mim, não era a frase em si. Afinal, era óbvio que a vida iria ser diferente. Mas o que atiçava a minha curiosidade eram as expressões e os tons de voz das pessoas quando diziam esta frase.

Alguns expressavam pena, como se vissem a vida ante-Lucas como sendo possuidora de uma perfeição imaculada que seria eternamente manchada pela chegada do bebê. Outros diziam a frase com um sorriso irônico (mas sem perder a amizade), como se realmente estivessem dizendo: “Você achava que a vida era difícil? Ainda não viu nada!” Ainda outros expressavam compaixão misturada com alegria…na grande maioria, pais que já haviam passado por esta etapa da aventura da vida, que estava apenas começando para nós. Ao sair dos seus lábios, a frase era a mesma, porém ao uní-la com o seu tom de voz, o que realmente diziam era: “Sabemos que os próximos dias/semanas/anos serão trabalhosos e, de tempo em tempo, difíceis para vocês. No entanto, estamos aqui para lhes dizer que cada segundo, cada noite mal dormida, cada lágrima enxugada, vale à pena.” Eu gostava mais de ouvir a frase quando dita por alguém neste último grupo. Transpirava realismo e honestidade, misturados com empatia, misturados com amor, misturados com esperança.

Agora que o Lucas está “do lado de fora” (depois explico porque fico falando assim), posso comprovar que nunca mais a minha vida será a mesma, das mais diversas formas.

A tecnologia como ferramenta social

Anúncio do nascimento do Lucas no FacebookNunca a tecnologia esteve tão envolvida no processo de criação de relacionamentos sociais, quer sejam de amizade ou simplesmente reforçando laços familiares. Já éramos registrados no Facebook, Orkut, etc., porém com o nascimento do Lucas pudemos envolver os seus parentes no processo, mesmo estando do outro lado do globo. Usando meu celular e o Facebook, pude mantê-los informados sobre o progresso do trabalho de parto, deixando-os por vezes ansiosos ou tranquilos com as notícias. Podia ver também (e ler para a minha esposa) as suas mensagens de conforto e encorajamento e as suas orações pelo pequenino neném que estava para nascer. Mesmo estando longes, estávamos perto. A vovó do Lucas fez um excelente post no seu blog sob a perspectiva deles.

Após chegarmos em casa, o processo continua. Diariamente os avós, bisavós, tios e amigos entram no site do Lucas para assistirem o vídeo do dia (curtíssimo, é claro, para alguém que quer segurar e dar carinho ao netinho). Usando uma camerazinha de mão, tento gravar os momentos mais importantes do dia (ou seja, quase todos nos quais ele não esteja dormindo). Não sei por quanto tempo poderemos continuar com esta prática diária (talvez se torne em algo semanal, em breve). Porém não há duvida que neste momento tão especial, a tecnologia da nossa era veio a calhar para unir esta família tão geograficamente dispersa. Ao contrário do que temia o filósofo alemão Martin Heidegger, a facilidade que a tecnologia oferece de fazer uma distinção entre sujeito e objeto permitiu que vários “sujeitos” nos quatro cantos da terra participassem de uma forma especial e carinhosa do nascimento e dos primeiros dias do “objeto” de suas atenções.

O papel da percepção no valor que damos à vida

Eu penso, logo você existe.Nos últimos dias fui apresentado pelo meu irmão Darius ao anime (animação japonesa) Ergo Proxy. Entre outras idéias filosóficas interessantíssimas que são discutidas no decorrer da história, uma delas é a frase cogito ergo sum, ou “penso, logo existo” (atribuída ao filósofo francês Descartes em meados de 1644, porém a idéia é bem mais antiga, introduzida pelo grego Platão e expandida por Aristóteles, também grego, séculos antes do nascimento de Cristo). Em um determinado momento, a discussão explora uma perspectiva diferente sobre a existência, e a frase vira “penso, logo você existe.” Quando assisti este episódio, estava com o Lucas nos braços, tentando colocá-lo para dormir, e essa frase se encaixou perfeitamente com um pensamento que havia me atropelado pouco depois do nascimento do Lucas: o quanto a minha percepção do Lucas e da sua existência afetava o meu comportamento para com ele, fisicamente, emocionalmente, e até espiritualmente!

…entreteceste-me no ventre de minha mãe. – Salmos 139.13

Não é que eu não sabia que o Lucas já estava lá, na barriga da mamãe, durante os nove meses que precederam o seu nascimento. Porém as minhas atitudes como pai ante-nascimento e pós-nascimento foram bem diferentes. Ao ver o meu filho, ouvir o seu choro, tocar a sua pele, e cheirar aquele cheiro gostoso de bebê, a realidade de sua existência caiu por sobre mim como uma tonelada de tijolos. Não estava preparado para isto. E nos dias que seguiram, me senti como se estivesse num sonho, como se a qualquer momento aquela criança tão querida para mim pudesse ser tirada de nós e retornada àquele estado de meia-realidade que havia caracterizado os meses anteriores. (Graças a Deus isso não ocorreu!)

O que ficou claro para mim é que mesmo dizendo o que for quanto ao que acreditamos sobre o valor da vida e sobre o momento do seu início ou fim, as nossas atitudes são muitas vezes influenciadas pela nossa percepção da realidade da outra pessoa. Isso afeta questões óbvias de vida ou morte, como o aborto e a eutanásia. Mas também afeta outras questões, como por exemplo o nosso tratamento das pessoas e o nosso respeito por elas. Quando lemos uma notícia no jornal sobre uma criança ou um jovem que morreu, os escritores muitas vezes usam a palavra “tragédia”, talvez por causa do potencial futuro daquela vida. No entanto, e uma pessoa idosa que já viveu uma vida cheia de experiências? Será que a sua morte também não é uma tragédia? Não é trágico para a humanidade perder aquele integrante, perder a sua sabedoria, a sua experiência, a sua personalidade, o seu ponto de vista, a sua alma? Enfim, a nossa percepção sobre o potencial de vida futura afeta a nossa reação àquela notícia, ainda que no fundo, no fundo, saibamos que o valor-base da vida humana é o mesmo, independente da idade da pessoa, e que nós deveríamos estar refletindo isto nas nossas ações.

Não quero falar demais sobre este ponto, então deixo aqui algumas perguntas para propósitos masticatórios dos leitores: Como a sua percepção dos seguintes fatores afeta o valor que você dá à vida de uma determinada pessoa, e as suas consequentes atitudes? E a segunda pergunta: deveria ser assim?

  1. Idade
  2. Inteligência
  3. Estética
  4. Força física
  5. Utilidade à sociedade
  6. Religião
  7. Caráter
  8. Raça
  9. ??? (Tenho mais idéias mas deixo a palavra com vocês…)

Dentro de alguns dias concluirei a série com mais alguns pensamentos sobre como a minha vida nunca mais será a mesma com a chegada do Lucas. Nesta primeira parte descrevi algumas descobertas práticas e filosóficas. A parte dois tratará de algumas mudanças radicais nas áreas de emoção e espiritualidade.

Agora, com licença, vou brincar com meu filho…

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2 comentários

  1. 1. Normalmente julgamos a “sabedoria” de alguém pela idade. As Escrituras dão indícios de que realmente os anciãos e os mais velhos tem uma sabedoria por experiência, mas creio que elas dão mais ênfase naquela sabedoria que é buscada através da oração e devoção à Deus, na pessoa de Cristo (vide Tg 1, Cl. 2). Sendo assim, todo cristão que pede sabedoria à Deus com fé, receberá. Talvez o exemplo mais visível seja o caso de Salomão; portanto, não deveríamos julgar mais faltosa a perda de alguém mais novo por que “deixou de viver” tanto quanto de um mais idoso que “já viveu tudo o que tinha para viver”.

    2. Creio que cada um tem suas habilidades peculiares, e isso “esbarra” no ponto 1. A capacidade para fazer aquilo que Deus capacitou para fazer está na maioria dos homens na maioria das áreas da vida.

    3. Infelizmente estamos imersos no contexto da beleza. Filosofias antigas foram transportadas para nosso tempo, não como um passe de mágica, mas gradualmente, e isso fez nosso mundo hoje essencialmente “belo”. Quando algum artista (que já inclui aí beleza) morre, é um drama não poder mais contar com seu brilho nos palcos ou estúdios, não pela pessoa que é, mas pela imagem que tem (nem julgo aqui a apresentação em si).

    4. Acho que está ligado ao ponto 3. Normalmente a força física é mais desejável quando ela só transparece o corpo do Rambo, mas não se consegue levantar um supino com 2kg de cada lado… =P

    5. Essa esquecida! Mas o que é útil à sociedade? Alguém que faz um controle remoto motivado por pensamentos (já pensou?) ou alguém que desenvolve uma forma revolucionária de reciclagem?

    6. Invariavelmente e inevitavelmente uma pessoa vive aquilo que crê. Como Dooyewerd diz, todo motivo-base é religioso, então, podemos ver uma econômia inteira sendo motivada por uma questão teológica. Não é diferente com indivíduos. Claro que um espírita que faz boas ações e ajuda as pessoas é motivado pelo sentimento errado, mas de fato há ajuda! Talvez essa parte da religião sirva para enxergarmos a nossa religiosidade. E se ela não passar em muito a dos escribas e fariseus…

    7. Creio que está ligado também ao ponto 6. Ele é moldado pelas crenças (tácitas ou não).

    8. Agora com o Obama no poder, esse negócio de raça tá na moda. Mas, no que difere o gentio do judeu? Todos pecaram. 🙂

  2. Caro David:

    Grande percepção.

    Realmente sua vida nunca mais será a mesma. Essa é uma constatação de qualquer pai (ou mãe). A metamorfose contínua da vida é uma realidade; as fases vão se sucedendo; as lembranças – por vezes nostálgicas, se acumulando; novas vidas surgindo e se entrelaçando as que já se uniram; as expectativas se reformulando; as adversidades nos amadurecendo; as alegrias sempre ocorrendo.

    A axiologia da vida nos leva a Deus – o que une todas as coisa, todas as pessoas, todas as fases. E, em cada fase, o segredo da felicidade é descobrir a singularidade mágica de cada uma, que a torna especial para nós, naqueles momentos – bem como na constatação de que não estamos sós, em cada passo. Além de pessoas ao nosso redor (umas bem próximas, outras mais remotas – mas todas importantes, em suas características), a proximidade de Deus, perceptível pelo Espírito, possibilitada pelo grande comunicador: Cristo Jesus.

    Sua vida nunca mais será a mesma: ela será diferente, mas com tremendo potencial de ser mais feliz do que os momentos vividos no passado; ou de você ser utilizado mais em auxílio para outros, do que em causa própria.

    A cada nova vida que se une à sua, mais despreendimento e mais felicidade; mais responsabilidade e mais versatilidade; mas compartilhar de coisas nunca dantes repartidas e mais experimentar de situações e contentamentos nunca dantes vivenciados.

    Tudo isso, e a própria experiência concreta vivida com a chegada do Lucas, leva a uma constatação do valor da vida, como você expressou em seu texto. A vida é tão valiosa primariamente porque ela tem dignidade intrínseca – por refletirmos a imagem e semelhança de Deus. Secundariamente, acho que esse valor pode, sim, ser acrescido por alguns dos aspectos que você colocou (ainda que uns precisem de qualificativos – para não serem discriminatórios), aos quais eu acrescentaria: “proximidade”. A vida mais próxima adquire um valor todo especial para nós, na medida da proximidade nossa com o outro – a começar pela esposa, depois os filhos, etc.

    Parabéns pelo texto e dou graças a Deus por nossa proximidade, tão intensa, ainda que fisicamente distante.

    Seu pai – Solano (orgulhoso avô do Lucas)

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