Duas Razões Para Não Contribuir Com Missões

nunca(Este é um resumo da palestra que eu dei ao grupo de jovens – OPS – da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, no dia 15 de Agosto de 2009.)

Muitas vezes ouvimos missionários falarem sobre o seu trabalho e concluírem com um pequeno incentivo para que os irmãos contribuam com missões (e mais especificamente, com a missão dele/a). Nestas ocasiões, às vezes existem alguns argumentos para a contribuição que, penso eu, fazem mal tanto ao reino de Deus quanto aos contribuintes em si.

Primeira razão: culpa

SorryO que é a culpa? Todos conhecemos o sentimento, mas algumas pessoas têm dificuldade de descrever o que é ou porque estão sentindo aquilo. Eu a defino da seguinte forma: culpa é o sentimento que lhe domina o coração quando você se compara moralmente a um padrão e descobre que existe uma diferença muito grande entre as duas coisas. Existe, então, apenas uma coisa que deve legitimamente criar culpa no seu coração: a constatação de que você é um/a pecador/a e que você não atinge, moralmente, à santidade de Deus e ao Seu padrão para a sua vida. E esse sentimento de culpa tem apenas um propósito: o de te impelir na direção dos Seus braços abertos em graça, procurando a salvação em Cristo, do qual vem a liberdade (incluindo a liberdade da própria culpa!).

Gálatas 5.1 nos diz: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão.”

O que acontece quando, após sermos libertados, viramos as costas a Deus e retornamos ao nosso pecado e à nossa escravidão? Mais uma vez, a diferença entre o padrão e a realidade se torna aparente e a culpa nos empurra para os braços do Pai. E essa é a única resposta que a culpa deve produzir. Se a culpa em si é usada como motivo para qualquer outra coisa, aquela ação está sendo feita com o propósito de diminuir o sentimento desconfortável no coração, e não como fruto de um desejo de fazer a vontade de Deus.

Sendo assim, se você permitiu que alguém lhe desse um padrão contra o qual você se mediu (ou se você criou um), e você tem contribuído com missões (ou com qualquer outro ministério) para anestesiar o seu sentimento de culpa por 1) não poder ir ao campo, ou 2) nunca ter contribuído antes, ou 3) por qualquer outra área de sua vida onde você tem dificuldade, você precisa questionar seriamente as suas motivações para contribuir e a sua sinceridade no apoio àquele trabalho.

Segunda razão: obras

ObrasÀs vezes caímos na cilada de usas os ministérios do Reino de Deus para darmos um show das nossas próprias qualidades, ou para colocar a nós mesmos sobre um pedestal, onde os outros possam nos ver a apreciar o que temos de bom. As pessoas gostam de descer a lenha em cima do pessoal da equipe de louvor como exemplos disso, mas para cada líder de louvor orgulhoso que eu já vi, vi muitos mais pastores, presbíteros, e professores de escola dominical que adoravam demonstrar o seu intelecto e os seus conhecimentos, quer tenha sido ou não relevante para o assunto que estavam ensinando.

Efésios 2.8-9 nos diz: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.”

Se estamos contribuindo para o reino porque isto nos faz sentir bem sobre nós mesmos, ou porque achamos que de alguma maneira isto nos trará uma recompensa nos céus, mais uma vez precisamos questionar as nossas motivações e a nossa sinceridade.

O seu chamado

Virus!Se você já faz parte da Igreja há um tempo, você pode ter ouvido várias vezes que você deve ser um missionário, não importa onde esteja. E é verdade. Você é chamado para ser um agente viral vivo, infectando o mundo ao seu redor com o evangelho de Jesus Cristo!

Marcos 16.15 nos diz “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.”

Alguns pastores que conhecem o grego koiné bem melhor do que eu dizem que uma tradução melhor seria “Indo por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” Mas de qualquer forma, a mensagem é clara. Por um lado, o “Ide!” nos empurra da nossa área de conforto para a tarefa nem sempre ordeira de pregar a Cristo a um mundo que muitas vezes é hostil à noção de que precisa ser salvo de qualquer coisa. Por outro, o “indo” deixa claro que este é um processo que deve acontecer naturalmente na vida de todo crente, se ele/a está verdadeiramente envolvido/a em seguir a Deus e conhecê-Lo. Se você tem Jesus no coração, se Ele habita com você e você Nele, se ele é quem te dá fôlego para aguentar os problemas da vida e ânimo para celebrar as suas vitórias, se Ele é realmente o seu Senhor e Salvador, não há como manter isso debaixo dos panos, você nunca conseguirá escondê-Lo daqueles que te rodeiam. A Bíblia diz que somos um “aroma de Cristo” (2 Co. 2.15), e que a Sua presença não poderá ser ignorada em qualquer lugar onde nós estivermos.

Mas e as missões, como é que ficam?

GloboAgora que falamos um pouco sobre o que não deveria estar te motivando a contribuir ou a participar em missões e/ou ministério, e agora que definimos qual que é o nosso chamado como crentes do Senhor Jesus, podemos falar um pouco sobre o jeito que Deus descreve o trabalho de construção do Seu Reino e sobre as maneiras que Ele tem providenciado para que nós possamos estar envolvidos. Vamos começar olhando o texto de 1a Coríntios 3. Leia o capítulo todo para pegar o contexto (está cheio de lições preciosas sobre o nosso papel no ministério), mas no momento vamos nos ater aos versos 7 e 9:

De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. e Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício de Deus sois vós.

Duas coisas se tornam claras lendo este trecho todo, mas especificamente nestes dois versículos:

  1. Deus é quem dá o crescimento. A obra é Dele.
  2. Ele nos considera cooperadores, isto é, ele nos chama para trabalharmos juntos com Ele para a expansão do seu Reino.

A próxima pergunta, então, é: como vamos trabalhar juntos com Ele neste projeto? Bom, já falamos sobre como todos devemos estar pregando o evangelho à medida que vamos “indo” pelo mundo. A Bíblia nos dá muitos exemplos destas pessoas, quando menciona aqueles que foram instrumentais no crescimento da igreja nascente, pessoas que abriam suas casas para os cultos e/ou que ministravam aos crentes nas áreas onde viviam. Mas a Bíblia também nos dá exemplos daqueles que levaram o “ide!” um pouco além e saíram pelo mundo do seu tempo, pregando Cristo àqueles que nunca haviam ouvido falar Dele, e ajudando a Igreja a crescer através da pregação, do ensino, do discipulado, e da vivência do Evangelho (Paulo, Timóteo, Barnabé, etc.). Mas que estrutura existia para que estes dois, tanto o povo do “indo” como o povo do “ide!”, trabalhassem juntos?

Paulo, o nosso melhor exemplo de um cara que adotava o “ide!”, descreve este relacionamento em Filipenses 4.10-20, onde ele agradece aos Filipenses pelo apoio que deram ao seu trabalho:

Alegrei-me, sobremaneira, no Senhor  porque, agora, uma vez mais, renovastes a meu favor  o vosso cuidado; o qual também já tínheis antes, mas vos faltava oportunidade. Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece.

Todavia, fizestes bem, associando-vos na minha tribulação. E sabeis também vós, ó filipenses, que, no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja  se associou comigo no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros; porque até para Tessalônica  mandastes não somente uma vez, mas duas, o bastante para as minhas necessidades.

Paulo também deixa claro que aqueles que são chamados para servir neste ministério de apoio (e não duvide, este é um ministério que é tão essencial como o trabalho daqueles que atendem ao “ide!”) receberão todos os recursos que precisam para atender a este chamado:

2a Coríntios 9.11 (leia o capítulo todo para pegar o contexto!) nos diz “enriquecendo-vos, em tudo, para toda generosidade, a qual faz que, por nosso intermédio, sejam tributadas graças a Deus.”

Finalmente, Paulo também nos dá uma figura impressionante que ilustra o que acontece quando esta parceria (uns com os outros, à medida que cooperamos com Deus) não está operando corretamente. Ele compara o missionário ou ministro sem apoio a um boi cuja boca é atada enquanto pisa o trigo, uma mensagem poderosa sobre as dificuldades que afligem ao obreiro que está no campo sem o apoio do resto da Igreja. (1 Co 9.9)

Resumo e Conclusão

  1. Deus chama todos os Seus filhos para serem cooperadores com Ele na construção do Seu Reino. (Mc 16.15)
  2. Ele chama alguns para atenderem ao “ide!” e se dedicarem ao ministério em tempo integral, comandando à Igreja que aqueles que pregam o evangelho desta forma devem receber o seu sustento do próprio evangelho (isto é, daqueles que compartilham com eles do mesmo evangelho – veja 1 Co 9.14 e leia o contexto).
  3. Ele chama outros para apoiar àqueles que ministram em tempo integral, e não os faz passar necessidade por causa deste apoio, mas capacita-os e os enriquece em abundância, para que assim possam ser generosos. (2 Cor. 9:15)

A contribuição com missões, ou com qualquer ministério em tempo integral, deve ser motivado não por culpa ou por obras, mas por uma compreensão do papel que temos como cooperadores de Deus na construção do Seu Reino. Deve ser feita em parceria com aqueles que estão se dedicam ao ministério em tempo integral, apoiando-os não só materialmente mas também em oração, chorando com eles nos momentos difíceis e regozijando com eles nos momentos de vitória. Se Deus lhe chamou para este ministério, lhe deu os recursos, e lhe mostrou as oportunidades, vá em frente! E alegre-se na promessa que “visto como, na prova desta ministração, [os santos] glorificam a Deus pela obediência da vossa confissão quanto ao evangelho de Cristo e pela liberalidade com que contribuís para eles e para todos.” (2 Cor. 9:13)

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4 comentários

  1. Olá Davi. Demorou mais resolveu postar. Gostei da explanção. Foi bem elaborada e atenta. Esperamos que cada um ” prove a sua própria obra, e terá glória só em si mesmo, e não noutro”(Gal.6:4), mas e notório que somente com a motivão correta é que se atinge o objetivo esperado por Deus.

    Forte abç,

    Ismael Fernandes

  2. Estive lendo sobre a perseguição a cristãos em Bangladesh, no site da Portas Abertas. Como é o trabalho missionário aí? E a atuação dos cristãos individualmente: é possível falar do amor de Deus? E a relação entre as denominações?
    Certa vez ouvi de uma missionária que, “no campo missionário de países fechados ao evangelho, as barreiras denominacionais se desfazem feito pó”. Ela chegou a trabalhar, inclusive, em parceria com católicos romanos num período de guerra civil em Angola.
    Acho que pelo menos os protestantes deveriam aprender com a igreja perseguida e deixar de olhar tanto para o próprio umbigo. Por exemplo, quando veremos uma agência missionária comum? Ou iniciativas comuns de evangelização na América Latina e no Brasil, mesmo?
    Como dizem os teólogos da Oficina G3:

    “Oculta em nossos dias, há uma guerra fria
    Vitimas que ninguém vê
    Caem os muros, tirem as pedras
    Nossa unidade não é real
    Se a verdade é o que pregamos,
    Por que erramos não sendo um?”

    “Quem vencera?
    Uma guerra entre irmãos
    Uma guerra perdida
    Quem perdera?
    O povo escolhido
    Um povo ferido”

    Você acredita que um dia haverá unidade entre os cristãos? Que o mandamento de Jesus e as recomendações de Paulo serão uma realidade? E se as igrejas entenderam errado?

  3. Olá Lucas –

    Não estou mais em Bangladesh, voltamos em Junho para São Paulo e estamos trabalhando com outros ministérios aqui, pode conferir no nosso site. Mas posso contar um pouco sobre como é o trabalho missionário lá. A pregação pública do evangelho não é permitida, apenas em igrejas onde as pessoas busquem ouvir de sua própria vontade. Neste sentido a evangelização, de forma tradicional, não acontece (é contra a lei). A alternativa acaba sendo entrar no país junto a uma ONG, trabalhando com um projeto. Nossos amigos, Flávio e Verônica, estão trabalhando lá ainda com um projeto que ensina às pessoas a usar o computador (Windows, Word, Excel, etc.). A idéia é que ao mesmo tempo em que eles ensinam estas técnicas, vão conhecendo os alunos e criando vínculos de amizade, abrindo portas desta forma para que eles procurem saber qual é a motivação deles em darem-se de si mesmos nesta obra (e isso é muito comum, para eles não existe pergunta “pessoal”, perguntam tudo mesmo).

    Você fez várias perguntas num comentário só e ficaria muito longo tentar responder a todas numa resposta só. Mas resumindo, minha visão é que:

    1. Sim, em contextos como esse, caem as barreiras denominacionais, porque somos no mínimo co-beligerantes, no máximo colaboradores.
    2. Não creio que todas as barreiras denominacionais sejam fúteis ou em vão. O problema é que a definição de “denominação cristã” é ampla demais nos dias de hoje. Temos verdadeiras seitas e falsas religiões que são consideradas como denominações cristãs, lugares onde não só são aceitas e promulgadas propostas que vão contra a Bíblia mas “igrejas” onde a revelação bíblica em si não é aceita como a base para a fé. Então fica difícil dizer que uma denominação está olhando “pro próprio umbigo” se ela se posiciona contra o ensinamento de um grupo destes. Na verdade, ela está olhando para o ensino do grupo e comparando-o com o ensino bíblico.
    3. Concordo que existam situações em que a coisa desanda e igrejas estajam olhando demais pro próprio umbigo, nas piores das vezes até restringindo, na prática, aqueles que elas consideram serem cristãos ou não. Veja bem: a Bíblia nos comanda de zelar pela pureza e verdade no ensino e na exposição das Escrituras, mas ela não nos torna em juízes de quem é ou não é salvo. Aliás, ela fala muito contra esta última idéia.
    4. Vejo também que muitas das coisas que fazemos para o reino de Deus hoje seriam difíceis de fazer sem as estruturas denominacionais dando apoio. Vejo igrejas estruturadas e unidas em cima de alicerces firmes de doutrina porque se organizam como denominação. Seria lindo se pudéssemos concordar em tudo (alcançando a verdade nas Escrituras), mas creio que isso não será possível enquanto não tivermos a possibilidade de perguntar todas as nossas dúvidas a Deus (e até quando isso acontecer, eu conheco gente que ainda vai teimar…). Lembro que até Paulo e Pedro tiveram suas diferenças de tempo em tempo, e fizeram trabalhos separados durante este tempo. A diferença no nosso caso é de escala.
    5. Que as igrejas entenderam errado, não tenho dúvida. Somos falíveis e tendenciosos. Procuramos os nossos interesses antes dos interesses de Deus. E até quando fazemos a coisa certa, muitas vezes fazemos pelas razões erradas.

    Neste contexto, procuro conhecer os meus irmãos na fé, ao invés de rotulá-los. Procuro partir primeiro de uma união em Cristo, e não começar com uma divisão e ver se o “cabra é bom”, porque a própria premissa da união com Cristo nos põe juntos numa posição de redimidos.

    Abraços!

    – David

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