Delirando além da imaginação

Uma das experiências mais estranhas da minha vida ocorreu em 1993, quando fui morar no Canadá pela primeira vez. Antes de começar a faculdade, passei um verão trabalhando num acampamento infantil, ajudando na manutenção e na limpeza do lugar. Havia vários outros jovens lá também, ajudando como monitores, e consequentemente estávamos sempre imersos nos dramas que acompanham o final da adolescência, procurando respostas para questões importantíssimas de impacto global: quem gostava de quem, porque gostava dele/a e se era só empolgação ou se a coisa era séria.

No meio deste ambiente pouco familiar, e ainda tentando me adaptar a uma cultura bem diferente daquela na qual eu havia crescido, fui o alvo de uma acusação completamente inesperada: (aparentemente) eu havia chegado para uma das monitoras do acampamento e lhe insultado descaradamente.

Como eu nunca havia dirigido a palavra àquela moça, é claro que estranhei a acusação, e fui tirar satisfações. A conversa foi rápida:

Eu – Oi, meu nome é David. Ouvi que fez acusações quanto à minha pessoa, e queria saber porquê.

Ela, me fitando com um olhar gelado – Você sabe muito bem o que fez.

E foi embora, me deixando só, coçando a cabeça e tentando imaginar por que ela inventaria tal mentira, e por que cargas dágua continuaria agindo conforme a mentira, até comigo! Para mim, uma coisa estava clara: a moça não batia bem. Ou ela:

  1. estava mentindo intencionalmente, maliciosamente procurando (por alguma razão) denegrir a minha imagem perante os outros jovens que lá trabalhavam, e estava tão intensamente dedicada à sua causa que nem na minha presença ela se permitiria admitir que estava mentindo, ou ela
  2. realmente acreditava que eu tinha feito o que ela disse que fiz, e estava apenas agindo como alguém que procurava se proteger diante de uma agressão.

Tenho algumas razões para crer que a segunda opção é a verdadeira. Primeiro, a história dela era detalhada, continha insultos específicos, não era apenas “Ele me xingou.” Segundo, quando fui conversar com ela, o seu semblante realmente me deu a impressão de que ela estava com raiva de mim, se sentindo ofendida por algo que eu lhe havia feito.

Como explicar isso?

Presumi que ela estivesse agindo conforme a segunda opção, o que me deixou com outro problema. Estava claro que, se esta opção fosse verdadeira, um de nós estava com sérios problemas na nossa percepção da realidade! Veja bem, ou:

  1. eu havia insultado a moça, usando termos específicos (cujos méritos eu não teria condições de averiguar, já que não a conhecia e nunca havia lhe dirigido a palavra), e após ter feito isso havia esquecido completamente do episódio e continuado a viver como se nada tivesse acontecido, ou
  2. ela havia criado na sua mente a percepção de tal episódio, ou por meio de um sonho deveras vívido ou por causa de um delírio psicopatológico, e aceitado esta percepção como realidade, agindo sobre ela como qualquer outra pessoa agiria, tentando se defender de um acusador que não conhecia mas que lhe insultava agressivamente.

É claro que creio que o que ocorreu foi, novamente, a segunda opção. E quando chegar no céu, uma das minhas primeiras perguntas pra Deus vai ser “Que diabos aconteceu ali?” Mas o que me incomoda mais que zumbido de mosquito é o fato de que até chegar lá, nunca vou saber com 100% de certeza se não fui acometido de uma síndrome de tourette localizada, seguida por um delírio temporário…

Vocês já tiveram alguma experiência parecida? Qual a sua experiência mais estranha?

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2 comentários

  1. Em um acampamento eu ajudei a limpar as mesas no refeitório com outra conselheira. Achei um centavo na mesa, e depois que acabamos, eu dei o centavo pra ela, e com um sorriso disse: “aqui, a gorjeta!”

    Ela jogou o centavo na mesa, e com lágrimas nos olhos disse “eu não preciso de esmola, seu filho da mãe!!” e saiu correndo do refeitório.

    No momento ela não entendeu que o centavo era uma piada. Eu também não sabia que ela tava passando por um momento difícil, com saudades da mãe doente, e sem dinheiro para ligar pra saber como sua mãe estava.

    Os outros conselheiros me disseram pra não me importar, mas eu fui atras e pedi desculpas. Ela me disse então sobre a sua mãe, e eu ofereci meu cartão pro orelhão pra ela ligar pra sua mãe.

    Ela não aceitou o centavo, mas ficou muito feliz com o telefonema. 🙂 Acabamos o acampamento com uma boa amizade, e eu aprendi uma boa lição: nunca dê um centavo como gorjeta.

  2. Quando eu estava na faculdade um rapaz que estava aprendendo a cortar cabelo ofereceu a cortar o meu cabelo de graça. Aceitei, e durante o corte (que durou 2 horas!!!) tentei puxar conversa com ele. Fiz varias perguntas e conversamos um bom tempo. Ele era um cristão, recem-convertido…

    Alguns amigos meus entraram e zoaram um pouco da camisa dele (usava uma camisa apertado com a “Sininho” estampada na frente– provavelmente não a melhor coisa para usar quando é cabeleleiro e já existe um pouco de stigma que muitos são gay). Talvez não tive muita delicadeza, pois não o defendi e tambem não tentei melhorar a situação.

    Depois daquela noite, uma amiga minha me disse que ele havia falado a ela que cortar o meu cabelo foi a pior experiencia que ela havia tido. Ele havia interpretado as minhas perguntas simpáticas e curiosas (pelo menos era assim que eu as via) como uma interrogação. Tinha odiado as brincadeiras dos meus amigos sobre a camisa dele.

    Fiquei super chocada, pois não tinha notado tamanho descomforto. LIguei para ele, tentei pedir desculpas, mas ele não deixou. Falou para eu deixa-lo em paz. Tentei varias vezes ligar e consertar o que havia acontecido. Ele não deixou. Finalmente, ele falou comigo (acho que ficou cansado das minhas ligações) mas nunca ficou bem resolvido. Eu me senti péssima- chorei bastante- mas não consegui fazer as pazes de um jeito legal….

    Aogra parece coisa pequena, mas na época me incomodou muito ofender alguem sem ter tido nenhuma intenção de fazer isso!

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